A representação da miséria no cinema de De Sica



Não é de hoje que a miséria, enquanto recorte temático, atravessa o nosso imaginário. Além disso, ainda que, do ponto de vista cinematográfico, a sua representação remeta a uma certa tradição latino-americana, não se trata de uma invenção nossa.



Ora, a literatura europeia do século XIX já conservava o olhar para a pobreza endêmica. Os Miseráveis (Victor Hugo) e Tempos Difíceis (Charles Dickens), nesse caso, são ótimos exemplos. No entanto, essa também não é a sua gênese: Dom Quixote (Miguel de Cervantes) já se aventurava por espaços de pobreza e prostituição. E, além disso, em um tempo ainda mais distante, a própria Bíblia já discursava sobre as margens sociais.


Retornando, todavia, para a nossa tradição cinematográfica, é possível dizer, por exemplo, que o olhar para a pobreza generalizada está na própria base de um cinema latino-americano. Uma tradição que, nesse caso, atravessa diferentes épocas e contextos. Ainda assim, apesar de suas particularidades, trata-se de um olhar que conserva, ao menos, um aspecto comum: a intenção de denúncia.


Por outro lado, diferentemente de todos os exemplos citados acima, no cinema de Vittorio de Sica a representação da miséria - ainda que o tom de denúncia seja inevitável em uma abordagem como essa - tem como traço mais significativo o sentimento. Em filmes como Ladrões de Bicicleta e Umberto D., por exemplo, De Sica apela para a capacidade humana de sentir, de se colocar no lugar do outro, e consolida uma abordagem que penetra na alma e nos faz refletir sobre a própria existência.


Disso, no entanto, a grande questão é que vejo no cinema italiano dois temas basilares. Dois recortes temáticos que atravessam a sua trajetória (isso não exclui a existência de outras questões): 1) a dimensão sensível, 2) a representação da história nacional. E a obra de De Sica - precisamente os filmes citados, ao passo em que contextualizam uma Itália do pós guerra - carrega os dois recortes como essência. O que faz dele, nesse caso, ao menos para mim, o diretor que melhor traduz a ideia de um cinema italiano.