Subdesenvolvimento e miséria em Feios, Sujos e Malvados



Por um tempo, e, talvez, ainda hoje ocorra em grau menor, pensei o cinema geograficamente: o francês, o brasileiro, o iraniano etc. Separando-os por aspectos que, dada a minha experiência pessoal, julgava comuns. O cinema francês e seu ritmo cadenciado, marcado por diálogos e atitudes existencialistas; o brasileiro e o seu olhar para as margens sociais - herança de uma ampla cinematografia nacional e latino-americana.



Dentro dessa perspectiva, sempre associei o italiano a dois aspectos: 1) sensibilidade: os cinemas de De Sica e de Tornatore, por exemplo; 2) pretensão em compreender a história nacional.


Uma pausa.


Talvez, por, entre os países da Europa ocidental, ter sido o último a conseguir se unificar, a Itália tenha essa questão como um traço.


Retornando.


Filmes como 1900 de Bertolucci, Amarcord de Fellini e Nós que nos amávamos tanto de Ettore Scola atestam esse traço histórico do cinema italiano.


Por outro lado, consumido por essa minha ânsia de enquadrar as coisas, toda vez que assisto Feios, sujos e malvados teimo em associá-lo a uma poética que, basicamente, me remete a um cinema latino-americano: o filme de Ettore Scola é uma forte crítica à desigualdade social.


Por meio do ambiente familiar de Giacinto, que vive em um bairro periférico de Roma, somos apresentados a uma Itália que estamos pouco habituados. Longe de seu imaginário dominante. Por exemplo: Scola nos mostra a relação cruel entre miséria material e moral. E esse é o leitmotiv do enredo. Coloca em cena uma série de pessoas em situação extrema de pobreza, mal vestidas, assim como fez o Cinema Novo, por exemplo, aqui no Brasil.


Feios, sujos e malvados abre diálogo com o mundo. Vidas Secas, por exemplo, dialoga com ele. Elefante Branco, de Pablo Trapero, um filme argentino, também. Esse é o grande lance do cinema - ele transcende as barreiras geográficas. Trata as questões humanas. E, reservadas as particularidades pessoais, em grau maior ou menor, muitas dessas questões são universais.


Feios, sujos e malvados é dessas obras eternas e urgentes. Fala sobre a humanidade, ou sua falta. Como queira. Fala sobre as nossas vísceras sociais.