Godard e a liberdade



Falar de Godard, enquanto diretor, artista, requer a compreensão de que, ao longo do tempo, como consequência de suas inquietações particulares, em diferentes momentos de existência, há vários "Godards". Nesse caso, em específico, ainda que a ideia de liberdade seja um traço significativo que perpassa por diferentes contextos, nesta explanação, de modo basilar, centro-me em sua primeira fase: o Godard dos anos 1960. Dos tempos áureos da Nouvelle Vague. Precisamente em quatro obras: Acossado (1960), Uma Mulher é Uma Mulher (1961), Bande à Part (1964) e Pierrot le Fou (1965). O meu objetivo é demonstrar, ainda que brevemente, de que modo a liberdade é um componente central de sua poética. Uma liberdade, nesse caso, que perpassa pelos aspectos temáticos; mas, que, estilisticamente, se materializa em técnica.


Basicamente, é possível perceber que em cada um desses filmes há uma inquietação, por parte dos personagens, com as convenções sociais e com a própria vida. Característica que se torna aspecto basilar de composição dos universos diegéticos, e, além disso, que eleva o caráter da transgressão a um importante patamar. Em Acossado, por exemplo, Michel ultrapassa os limites ao roubar um carro e assassinar um policial. Ao mesmo tempo, sonha com uma vida livre voltada para a prática de furtos e delitos ao lado de Patrícia. Em Uma Mulher é Uma Mulher não é diferente. O espírito libertário e transgressor de Angela colide com as convenções sociais e agrega-se ao liberalismo social, moral e sexual que marcou a década de 1960. Por sua vez, em Bande à Part, Odile e seus amigos expressam uma desilusão com o cotidiano, com a vida, ao planejar um roubo em busca de emoções fortes que ajudem a conter o tédio. Do mesmo modo, é a inquietação com a própria existência que faz Ferdinand fugir com Marianne e viver a sua transgressão utópica. Alimentada por crimes, discussões filosóficas, literárias e políticas.


Por sua vez, como dito anteriormente, nos filmes de Godard, essa liberdade que configura o universo diegético também se materializa em forma. E é nesse ponto que reside a sua genialidade. Estilisticamente, é possível afirmar que todos esses filmes são marcados por descontinuidades visuais e sonoras: em Acossado, a descontinuidade visual, a opacidade da montagem, se converte em uma descontinuidade de tempo; já em Pierrot le Fou, o uso da voz off explicativa, em contraponto à encenação, imprime uma série de rupturas na continuidade narrativa. Além disso, ao propor, em cada um desses filmes, a quebra da quarta parede, Godard faz uso constante da teoria do teatro de Brecht.


Não é difícil perceber que essas rupturas apontam para um espírito libertário: as descontinuidades são como metáforas em defesa da liberdade criativa. Tornam a obra de Godard um discurso contundente contra as convenções e os padrões estabelecidos. Forma e conteúdo convergem. São partes de um mesmo projeto, de um mesmo discurso e produzem um mesmo sentido. Sua obra é como um manifesto em defesa da liberdade. Uma voz que ecoa e que evidencia uma diversidade social e artística. Por isso, mais do que qualquer outra coisa, Godard sempre será um libertário.