Texto de Daniel Corcino
(IG: @pluricine)


1. Quem é o protagonista?


O filme traz uma mensagem bem direta: uns entram e outros saem, mas nada abala o Grande Hotel, que continua indiferente aos seres humanos efêmeros. Isso é demonstrado de forma enfática no início por meio da inteligente montagem de discursos no telefone que demarca os protagonistas (passageiros) da trama. Em seguida, há um plano-sequência de quase 5 minutos interligando essas histórias magistralmente na recepção do hotel. E, logo após, acompanhamos um belo plano de cima para baixo, que revela a grande estrutura concêntrica do hotel, a fim de revelar que ele é muito mais imponente do que aqueles humanos que se acham importantes (pelo seu dinheiro), mas viram “formigas” em comparação com tal ambiente.

Ou seja, o hotel se impõe enquanto verdadeiro personagem principal, pois é a estrutura fixa por trás de tudo que passa por ali. Além disso, percebemos durante muitas cenas (fora dos quartos) que sempre há movimentações de pessoas na parte dos planos que não é ocupada pelo corpo/rosto dos protagonistas, intensificando tal ideia de brevidade de quem está provisoriamente em primeiro plano.

Usando de tal metáfora, podemos extrair camadas mais profundas de significados: o hotel pode ser um simulacro: 1) do cinema; e 2) da sociedade (em sua amplitude). A primeira ideia, comento a seguir, já a segunda, destaco no tópico 3.


2. Ousadia: amor e morte

Grande Hotel é, antes de tudo, um filme ousado. Primeiramente, vale resgatar a inovação histórica que trouxe. Criando o maior set de filmagem existente até então, foi primeiro longa a arriscar algo inédito: convencer 6 grandes “estrelas” hollywoodianas a atuarem juntas e dividir seu protagonismo. E, no fim das contas, a obra revela que nenhuma delas é o foco do filme.

O hotel se torna simulacro da 7ª arte: estrelas vão e voltam, observamos por um tempo seus amores e dores, mas, no fim, o serviço continua para que o edifício possa dar espaço a novas tristezas e felicidades de outrem. Um artifício interessante que percebemos é que a câmera só pode ir até a calçada, nada do que está para além daquele ambiente monumental merece ser acompanhado. Isto é, o enredo não prioriza ninguém exclusivamente (alguns passam longos minutos fora da tela), ele é fiel apenas ao hotel. O limite da tela é o limite do edifício-cinema, o qual espera para “viver” novas pessoas e histórias após as saídas dos protagonistas temporários.

Outra escolha impressionante é a utilização da própria base do cinema hollywoodiano para forjar expectativas falsas do que acontecerá com os personagens. Como incontáveis outros filmes da época, pensamos que vamos ali acompanhar os dilemas do “malandro galanteador” com outras mulheres que querem/não querem ele. Até que ele... Morre! No contexto histórico do filme, poucas coisas poderiam ser mais disruptivas do que matar o galã de forma abrupta. Em outras palavras, usa da expectativa de empatia por uma história de amor para poder passar as críticas sociais que se propõe.

Além disso, assistimos o destino da Flaemmchen, mas não conhecemos a reação da paixão interrompida da mulher russa, o que é outro rompimento do cinema clássico, que faz questão que todos os conflitos criados durante a história sejam resolvidos, para que conheçamos os destinos dos personagens no fim. E, já que falei sobre essas 2 personagens, uma cereja do bolo de Grande Hotel é poder conferir o choque direto entre a atuação “afetada” típica do cinema mudo de Greta Garbo e a ainda iniciante Joan Crawford, com sua atuação mais realista e “moderna”. Isso pode não ter sido intencional, mas isso também traz um tom único à obra.

3. O hotel que afaga é o mesmo que apedreja

Grande Hotel possui muitas cenas bem construídas, mas parte essencial de sua maestria está nos seus últimos minutos. Para compreensão dos significados mais profundos do filme, é muito importante dar atenção às escolhas e à montagem realizada na parte final. Vemos a cena do assassinato e não só a escolha de matar o protagonista não é usual, mas o que vem logo em seguida também: uma montagem irônica une o crime à indiferença de funcionárias do hotel ao barulho do telefone (ou a alguma ligação que estava ocorrendo paralelamente). Em cenas posteriores, vemos o cadáver da vítima ser comparado a um pedaço de carne que um açougueiro segura; o cadáver sai, a carne para alimentar os hóspedes entra. Também acompanhamos o cachorro do barão ser literalmente varrido enquanto é retirado daquele espaço “exclusivo”.

Além disso, lembremos de alguns dos personagens... Há o homem “comum” que quer se sentir rico e feliz pela primeira (e única) vez em sua vida por meio do consumo e da sensação de estar ao lado de espaços e pessoas “nobres”. Não menos relevante é o veterano de guerra (portador da moral da história), que está sempre à espera de mensagens e cartas, mas ninguém o lembra. Além disso, há o homem de negócios com sua frase hipócrita: “estou habituado a fazer meus negócios com bases sólidas, sou um negociante honesto, um bom marido e pai, não tenho nada a esconder”. E, em diversos momentos, há vários funcionários, muitas vezes imóveis como parte invisível daquela estrutura, que só se movimentam para servir aos ricos.

Então, o hotel beneficia e agrada todas as pessoas que podem pagar por de todas as benesses, mas assim que elas não geram capital, merecem desaparecer (como trabalhador ou como hóspede descartável). Ele funciona apenas para o benefício de manter a sua estrutura intacta. Assim, o hotel pode ser comparado à própria sociedade capitalista, que, à época, vivia uma crise profunda. Talvez, o momento que tal mensagem surja mais explicitamente seja no conflito direto criado entre o homem de negócios que sequer reconhecia seu funcionário, o qual só pôde usufruir de bens materiais e experiências caras porque sua vida presa à exploração pelo trabalho não teria mais continuidade.

Então, percebemos a alienação daquela vida “moderna” dos ricos ou daqueles que tem um passaporte temporário a estar nessa posição de consumo desenfreado. Não menos importante, notamos a indiferença do hotel-sociedade para as possíveis explorações e tragédias existentes, pois aquelas pessoas são apenas produtos da própria lógica que rege tal hospedaria.


4. Últimas observações

Deixei de lado alguns aspectos nessa análise, como detalhar o belo trabalho de fotografia e mise-en-scène. Cito brevemente que 2 boas demonstrações desses elementos estão nas cenas no quarto depois do assassinato e a cena da discussão de negociação, em que o Preysing vai sendo encurralado pelos negociadores pela posição que os corpos ocupam.

Para finalizar, vou citar algumas observações. Esse filme exemplifica a tradição corrente em filmes americanos clássicos, em que a prostituta é sempre disfarçada e não se apresenta diretamente. O filme mostra por meio de sutilezas que Flaemmchen não se espanta ao ver um homem seminu num quarto, aceita viajar com homens casados, etc. Ademais, o filme também demarca críticas à Rússia soviética em alguns momentos, revelando pelas falas da dançarina de que o país socialista é perigoso e injusto.

Alguns "vícios" típicos da época também existem, o que é algo passível de relevar nesse caso, por ser secundário. Percebemos a necessidade de repetir a “moral” 3 vezes, para deixar bem explícito a mensagem principal. Creio que isso não seria necessário, mas é um elemento válido para o contexto do longa. Nesse sentido, outro aspecto é a centralidade dos papéis femininos para os desejos e vontades de homens. Há alguns exemplos que deixam isso explícito, sendo o principal o da dançarina, que sai do total vazio existencial a um estado completo de felicidade apenas pela rápida paixão por um homem.

Dito tudo isso, destaco também que foi interessante conhecer de onde veio toda a inspiração de figurino e cenário de Grande Hotel Budapeste do Wes Anderson.

Portanto, Grande Hotel é um filme excelente e inovador, que merece ser visto (e revisto) por tudo que apresenta em suas diversas camadas. A história em si é interessante de acompanhar e a experiência fica ainda melhor ao percebemos a ousadia das escolhas narrativas e as críticas sociais implícitas na obra.


Fonte imagem: Grande Hotel (Edmund Goulding)

Nenhum comentário:

Postar um comentário