Texto de Daniel Corcino (IG: @pluricine)


1. O minimalismo potente


Um filme que consegue o máximo com o mínimo: é objetivo e simples, enquanto carrega uma força estética enorme. Com apenas 2 elementos centrais (fogo e água), cria-se uma alquimia visual e metaforicamente preciosa. As 3 cores primárias são as mesmas presentes numa chama: amarelo, vermelho e azul. Ademais, o amarelo ecoa na areia da praia e o azul, no mar. As protagonistas transitam entre essas diferentes nuances da chama e do mar que elas emanam por meio de sua relação, mas também pelos usos primorosos de fotografia e mise-en-scène (onde se inclui figurino: Marianne-vermelho, Héloïse-azul, Sophie-amarelo).


A água e o fogo (e suas cores) se relacionam de diferentes modos. Podemos exemplificar tal mistura rica no uso das telas: num momento a tela é molhada, noutro é queimada; uma pintura da Héloïse pega fogo literalmente, já noutra pintura, ela pega fogo ao entrar no mar (representando a perspectiva apaixonada de Marianne, que a viu se despindo pela primeira vez indo ao mar). Isto é, há antagonismo e também complementaridade entre todos os recursos escolhidos e, portanto, com pouco se faz muito.


Na verdade, o filme é assim como um todo... O roteiro é como uma orquestra bem ritmada, com diálogos econômicos e potentes, dando ao silêncio entre as protagonistas a mesma importância das trocas verbais. E tal ritmo se deve à grande relevância dada ao olhar nas atuações e à montagem (ligando o passar dos dias quase de modo imperceptível pela tríade pintora-tela-modelo), de modo que a soma das cenas vai construindo um todo muito coerente e bem executado.


2. A arte viva, a memória viva


Fica clara a homenagem feita, por meio da 7ª arte, às suas irmãs: a música, a pintura e a literatura. O longa explora a arte enquanto mediadora direta da construção de bons relacionamentos e na formação das memórias pessoais. Não existe hierarquia entre pintora-modelo, nem entre pessoa-obra de arte: é no contato simultâneo que a arte desabrocha e se traça enquanto algo pulsante. A literatura e a música ganham força quando mescladas com emoções e vivências. Ou seja, o filme passa a mensagem que a arte é influenciada e influencia a construção de relações pessoais potentes e cheias de sentido, pois é na correlação que a arte se revela vividamente. Aliás, a própria forma do filme reforça isso: acompanhamos quase que somente as memórias (afetivas) de Marianne, num flashback mediado pelas consequências de sua vida artística.


3. O aborto e outros nascimentos possíveis


Do início ao fim, a independência das mulheres é bem demonstrada de diferentes modos (mesmo no limitante contexto do século XVIII). E o aborto, experiência que é vivenciada de modo particular pela mulher, surge como símbolo-chave de tal autonomia. No longa, Sophie está determinada a realizar seu aborto e o faz com ajuda de outras mulheres. A ambiguidade profunda do bebê interagindo com ela durante o ato é memorável, assim como a ambivalência da pintura feita posteriormente sobre esse momento, que parece um aborto e um nascimento ao mesmo tempo devido à pose congelada. Destarte, é como se a arte tivesse esse poder de reavaliar/reconstruir tal memória dolorosa, de forma que algo novo nasce daquele aborto.


Além disso, vale destacar que tudo isso ocorre no ápice da paixão entre as protagonistas, já quando elas estão separadas (já sem o contato/suporte presencial), o filho de Héloïse nasce, fruto do casamento arranjado, mas também como um “atestado” daquele novo momento que elas vivem. Mas, para resgatar que o amor delas ainda perdura, há o detalhe da página 28 do livro. Mais uma vez, a arte reavalia/reconstrói momentos passados e circunstâncias desfavoráveis, dando espaço a novos nascimentos.


4. As mulheres


Ainda, destaco que esse filme (majoritariamente feito por mulheres) dá uma bela aula sobre como construir personagens complexas, que representam um momento passado por uma ótica atual. Por exemplo, todas as fases de uma paixão são representadas sem destacar diretamente o sexo, mas não por pudor ou censura, mas como escolha poética e política, visto que, dentro do contexto da obra, uma axila com erva se faz mais sensual do que uma cena que demonstrasse diretamente o ato da masturbação. Dessa maneira, fica difícil botar trechos desse filme no xvideos, servindo como subversão à lógica (masculina) de transformar tudo em pornografia. Então, novamente, o minimalismo de Retrato de uma Jovem em Chamas se mostra cirúrgico e original. Por fim, minha memória vai guardar com carinho essa obra poderosa, como uma chama que vai e volta, muda de cor, mas perdura. Afinal, o longa em si mostra que é para isso que serve a arte.


Fonte imagem: Retrato de uma jovem em chamas (Céline Sciamma)

Um comentário:

  1. "Retrato de Uma Jovem em Chamas" é sobre o começo e o fim de uma surpreendente história de amor e da união de mulheres que fazem a diferença quando estão unidas perante uma realidade não muito acolhedora. Leia mais no meu blog de cinema
    https://cinemacemanosluz.blogspot.com/2020/01/cine-especial-clube-de-cinema-de-porto.html

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