Texto de Daniel Corcino (IG: @pluricine)


O Menino e o Mundo (2013, Dir.: Alê Abreu) é uma obra-prima que foge do lugar comum (em diversos níveis) e também abre espaço para a discussão de muitos temas importantes e complexos. Neste texto, irei demonstrar um pouco a riqueza dessa animação a partir de alguns conceitos da Psicologia Ambiental e também da discussão sobre Imperialismo Ecológico e sustentabilidade no capitalismo.


1. Affordance


Em resumo, o filme trata de um garoto que mora no campo com sua família, mas após a partida de seu pai pela falta de trabalho, ele decide ir atrás dele e descobre a dinâmica de exploração e desigualdade da sociedade em que está inserido. Em diversos momentos, a animação revela o conceito affordance (da psicologia ambiental ecológica), trabalhado por James Gibson. Affordance é a interação pessoa ambiente existente por meio das possibilidades funcionais de um objeto, que define sua utilidade para cada um. Ou seja, quando eu vejo uma cadeira num consultório médico ou uma mesa num parque, pensarei num número limitado de possibilidades de interagir com aquele objeto a partir do que ele me comunica num ambiente.


No filme, mostra-se claramente que quase todos os adultos estão presos ao sistema capitalista, de modo que são forçados a exercer comportamentos repetitivos e sem inovação a respeito dos ambientes e objetos que estão em contato diariamente. Contudo, o Menino, principalmente quando no campo, consegue produzir múltiplas possibilidades com as cores e elementos que existem. Na cena inicial, a natureza aparece para ele com objetos que ele corre, mergulha, desliza, escala, anda, contempla. Isto é, as possibilidades funcionais estão presentes nos objetos e ele percebe isso, relacionando-se de modo variado e criativo com esses objetos. Outro exemplo possível de pontuar em relação a isso é quando o Menino transforma caroços de feijão e arroz em flores durante uma refeição.


Além disso, o grupo de pessoas que toca os instrumentos em diferentes momentos da trama também vê num pedaço de metal, por exemplo, algo que pode criar diversas melodias e cores. Esse grupo também utiliza penas, varetas, diversos tecidos e outros materiais para criar modos de se vestir autênticos, também vendo nos componentes não humanos diferentes funções e possibilidades. Já os trabalhadores são praticamente forçados a ver num objeto algo com uma única finalidade. Portanto, há a padronização e planificação nas possibilidades de objetos existentes na cidade industrializada e voltada ao capital, pois em muitos momentos é possível perceber os objetos e pessoas como um bloco uniforme e repetitivo. Assim, o ser humano reduz a si mesmo na medida que reduz suas possibilidades de interação com os objetos, tornando-os estritamente funcionais.


Na verdade, a forma como o próprio filme é realizado pode ser relacionado com affordance. Há inúmeros materiais utilizados de modo criativo para produzir os elementos da animação (indo muito além da programação em softwares 3D), de modo a revelar essa relação existente pessoa-ambiente e as potências funcionais que se revelam entre os dois.


2. Behavior settings


Ademais, esses padrões comportamentais citados anteriormente chamam a atenção para os behavior settings, conceito cunhado por Roger Barker que é a unidade básica da psicologia ambiental ecológica. Esse conceito diz respeito à interdependência pessoa-ambiente correspondente a padrões estáveis de comportamento que ocorrem em tempo e espaço determinados. Trata-se de um sistema limitado, autorregulado e ordenado que caracteriza o programa do setting, o qual é uma sequência prescrita de interações entre comportamento humano e não-humano. Além disso, parte-se da noção de que é mais fácil prever o comportamento dos indivíduos por meio do programa do setting em que estão inseridos do que analisando o indivíduo isoladamente.


Para exemplificar, quando um grupo está unido numa sala de aula, ou num cinema, ou numa festa de família, podemos prever mais facilmente o comportamento de cada pessoa quando inserida nesse ambiente do que analisando-a isoladamente. Assim, situações cotidianas relacionadas a ambientes físicos específicos formam espécies de “programas”, em que todos os indivíduos participantes seguem e reproduzem. Afinal, não se espera que um aluno fique com roupa de praia numa aula ou que alguém vá fazer um exercício de física num cinema.


Voltando ao longa, percebemos que a rotina dos trabalhadores mostra claramente que há programas bem definidos e delimitados. Padrões são percebidos facilmente e de fato é possível prever os comportamentos. Aos 21 minutos de filme, há a cena do pessoal que trabalha para a fábrica de tecido: os comportamentos dos sujeitos em relação ao seu ambiente são previsíveis e ocorrem nessa inter-relação direta pessoa-ambiente. O modo como cada um interage com os algodoeiros e os algodões depende exatamente de sua relação na escala de trabalho, de modo que isso acarreta na disposição comportamental padronizada em relação ao espaço e ao tempo. A vida na cidade também denota a ideia de programas que são seguidos cotidianamente por inúmeros indivíduos, o que também fica marcado em algumas cenas. Por exemplo, quando o amigo do Menino pega o ônibus e chega a sua casa, comendo o mesmo produto e assistindo TV até dormir, a animação passa a ideia de que esse programa é repetido muitas vezes por ele e também pelos outros que estavam em seu ônibus.


Entretanto, é necessário problematizar esses comportamentos previsíveis, uma vez que esses programas não devem ser vistos como algo universal ou natural, invariável de cultura para cultura. O filme mostra de forma muito bem construída como existe uma lógica de exploração extrema pelo sistema capitalista, que afeta diretamente tanto a maioria dos seres humanos quanto o meio ambiente. De modo que os behavior settings existentes no filme não são fruto de uma relação homem-ambiente neutra, mas sim de uma relação construída historicamente e atravessada por interesses intrínsecos ao sistema produtivo atual. O processo de alienação do trabalhador ocasiona indiretamente na sua forma de interagir limitadamente com os objetos e ambientes, uma vez que essas pessoas realizam seus trabalhos mediados pela não detenção dos meios de produção (o que ocasiona o que Marx chama de ruptura metabólica).


Em filmes como O Sangue do Condor (1969, Dir.: Jorge Sanjinés), A Revolução dos Cocos (1999, Dir.: Dom Rotheroe) ou Bacurau (2019, Dir.: Juliano Dornelles & Kleber Mendonça Filho), nota-se que o modo como uma comunidade pode agir de forma muito mais ativa e apropriada de sua realidade, transformado e sendo transformado direta e conscientemente pela relação direta pessoa-ambiente. Na animação, por sua vez, isso quase não existe. Um artifício muito inteligente presente nela é o uso de colagens para tudo que se refere à propaganda, passando a ideia de que os traços e cores originais dos criadores não cabem ao produto artificial, fruto dessa exploração do trabalho.


3. Imperialismo Ecológico e sustentabilidade


Também há uma cena específica que mostra claramente a discussão sobre imperialismo ecológico (levantada por John Foster e Brett Clark). As matérias primas são levadas para os países isolados, “organizados” e ricos, enquanto a periferia (caótica e cinza) do capitalismo recebe de volta produtos industrializados, seus dejetos e consequências, como vulnerabilidade socioambiental, destruição gradativa dos ecossistemas e acesso desigual aos recursos produzidos, etc. E isso diz respeito também a outro assunto que perpassa o longa, a sustentabilidade.


O filme mostra como não é possível resolver a questão ambiental por meio da ideia do desenvolvimento sustentável clássica, que diz respeito a existir o equilíbrio entre crescimento econômico, progresso social e manutenção dos recursos. O Menino anda por esse mundo desigual, de modo a não existir espaço para uma responsabilidade igualitária e neutra para todos no que diz respeito aos danos causados ao ambiente. Na lógica capitalista, também se torna difícil a existência de muitas pessoas com comportamento pró-ecológico.


Dessa forma, uma aposta em “consciências éticas e sustentáveis” não é suficiente nesse sistema: o problema é social e político, logo não cabe a responsabilização dos indivíduos isoladamente. Faz-se necessário buscar a educação emancipatória, que exige transformação social e tensão das bases de reprodução da questão ambiental. Assim, aos poucos, por meio da reflexão crítica e ações de cunho social e ecológico, constroem-se cada vez mais novos modos de relação pessoa-pessoa, pessoa-ambiente e pessoa sociedade-ambiente.


Aliás, uma das mensagens mais importantes que a animação traz diz respeito ao “espírito” de mudança/resistência que surge de uma relação mais harmônica, igualitária e criativa com os objetos e o ambiente, que é personificado pelas pessoas que tocam os instrumentos em grupo. Portanto, O Menino e o Mundo é um filme riquíssimo e as discussões que ele levanta não acabam nesse texto, sendo sempre válido revisitá-lo a fim de descobrir novos detalhes e nuances para refletir as temáticas que despertam em cada espectador.


Fonte imagem: O menino e o mundo (Alê Abreu)


Referências:


Temas básicos em Psicologia ambiental - Sylvia Cavalcante e Gleice Elali (org) (https://amzn.to/2VoXGq2)


Imperialismo ecológico: a maldição do capitalismo - John Foster e Brett Clark (https://pdfs.semanticscholar.org/036c/25fff00de263dc4144207a66aad0e63839d6.pdf)


O novo desafio imperial - Leo Panitch e Colin Leys (org) (https://amzn.to/3g5a8TD)

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