Texto de Nicholas Mesquita


No início da década de 1940, o governo norte-americano pediu a Ruth Benedict que escrevesse um “dossiê” sintético sobre a cultura japonesa, já que era impossível para os americanos prever as intenções nipônicas na guerra, como os famigerados kamikazes. Ruth, então, construiu o monumental estudo etnológico sobre o Japão, inclusive colocando um poético título no livro: O crisântemo e a espada. Ora, aos olhos ocidentais era impensável aliar dedicação, delicadeza e belicismo nas mesmas mãos que, por um lado, cuidavam dos frágeis crisântemos e, por outro, empunhavam lâminas mortais. Ou você é 8 ou 80, ao céu ou ao inferno. Dito isto, o Oriente sempre pareceu ser uma penumbra intransponível para o Ocidente que sempre buscou estereotipá-lo.

A própria Ruth dissertou de maneira maravilhada como o budismo foi ressignificado no Japão e tornado mais “mundano”, mantendo seu caráter autodisciplinado, porém, se afastando um pouco do transcendental. Em outras palavras, delineou os traços de como o zen-budismo japonês foi apropriado por seus governantes. Desde Schopenhauer, por exemplo, que o Ocidente busca compreender a espiritualidade oriental, em particular o budismo, sem conseguir abarcar todas as suas nuances, todas as suas transformações. E é aqui que chegamos a Martin Scorsese, talvez o expoente máximo do cinema científico americano e Ocidental.

Scorsese sempre teve a espiritualidade como central em suas obras, direta ou indiretamente, com o catolicismo que marcou sua infância sendo um Norte para seus personagens, por isso, surpreendeu que ele tenha buscado tratar do tema abordando outra religião (com certeza, o resultado dos outros dois filmes em que ele focou o cristianismo foi superior a Kundun). A película é primorosa tecnicamente, mostrando a beleza estética do budismo tibetano, com suas cores quentes e sua paisagem magnífica no alto do Himalaya, mas ainda demonstra o respeito que o diretor teve em mergulhar na espiritualidade oriental e sua estranheza com o tema (não há nenhuma menção às outras linhagens budistas, por exemplo, apenas a Índia é citada, mas como os budistas chineses auxiliaram o Tibet ou mesmo os japoneses, isto não fica explicado).

Scorsese escolheu tratar do budista mais famoso no Ocidente, o 14o Dalai Lama, construindo uma cuidadosa biografia que começou em 1933, com a morte do 13o Dalai Lama. Ainda criança, Tenzin Gyatso teve que enfrentar a expansão da China de Mao Tsé-Tung e a anexação do Tibet pelos comunistas. Scorsese narra lentamente (as vezes até de maneira cansativa) a transformação de Gyatso em líder do Tibet junto das negociações com os chineses. Contudo, toda obra deve ser compreendida não só pelo que diz, mas também (e talvez principalmente) pelo que deixa de dizer.

O budismo tibetano, que preza pela não-violência, também tem suas ambiguidades. O próprio Dalai Lama, em seus livros, fala da dificuldade em aceitar seu destino, de como lutou consigo mesmo e foi “forçado” a amadurecer pelas pressões externas – o processo de “escolha” dos tibetanos por seu líder é “involuntário”, a reencarnação de Buda acontece de maneira aleatória e aquele que reencarnou deve aceitar seu Dharma. Estas questões não são bem desenvolvidas no filme, assim como a dualidade da ética tibetana, já que em nenhum momento histórico o Tibet saiu em defesa de outros povos, preferindo se fechar em sua doutrina e em seus assuntos (como as outras linhagens budistas agem, por exemplo?). Afinal de contas, se ausentar não é ser conivente com a violência? Mas, o que se pode fazer frente uma força maior? A própria questão de não ser uma religião proselitista como o cristianismo traz estas questões em seu bojo. Porém, quando necessitou de ajuda externa, ficou claro que o Tibet havia sido deixado à própria sorte (Karma?). Com sabedoria, Tenzin vai tecendo negociações com Mao (superficialmente descrito em sua ideologia, um erro crasso do diretor, já que a maneira como os chineses desenvolveram o comunismo é bastante peculiar e tem a ver com sua milenar cultura), cedendo a fim de livrar seu povo do sofrimento que lhe seria imposto, até que os interesses chineses não podiam mais dialogar com a espiritualidade local.

A invasão do Tibet pela China comunista foi um dos episódios mais brutais, física e simbolicamente, do século XX, desprezado pelo afeto Ocidental há décadas (Hong Kong, bem mais interesse do ponto de vista comercial, sempre é posta em perspectiva, assim como as dores raciais do negro americano parecem doer mais que as dores de um negro sulamericano), com a imposição de um ateísmo rude e grosseiro, destruindo uma cultura belíssima e uma religiosidade peculiar, uma linha do budismo particular que agregou crenças locais, dos antigos himalayos, e que resiste a duras penas atualmente (vez por outra aparece um monge no noticiário ateando fogo ao próprio corpo, a única maneira desesperada de manter a fé intacta, a própria liberdade e a própria humanidade).

Scorsese tenta mostrar a diferença e profundidade cultural dos dois regimes: um colorido, amável, amistoso; o outro totalitário, cinza, frio. Contudo, acerta mesmo na reflexão que nos martela ainda hoje e que está no cerne da própria prática budista: até que ponto eu posso suportar a pressão e não reagir na mesma intensidade violenta? Até que ponto posso reagir e não me tornar igual a eles? O 14o Dalai Lama é considerado o Buda da compaixão e, em diversas oportunidades, faz questão de afirmar a importância da não-violência. Sua trajetória reafirma isto, inclusive. Resistir sem ser violento. Se Weber dizia que o budismo era a preparação para a morte, a aceitação da dualidade da vida de forma serena, e Nietzsche afirmava que esta seria a religião de povos avançados que têm no amor verdadeiro por tudo aquilo que é vivo, o amor sem apego, a finalidade última da humanidade, o filme definitivamente acerta em mostrar o caminho intransigente de Tenzin e sua fé. Mesmo com toda a dor, com os bombardeios chineses, os estupros em massa, todas as violações, o 14o Dalai Lama jamais ergueu o punho para protestar violentamente. Mas, o Tibet paga um preço alto por isto ou não? A violência pode ser justificada? Afinal de contas, o que pode ser considerado violência? Scorsese, talvez um dos diretores que mais uso fez da temática violência, parecia ter a mesma pergunta à época (em Silêncio ele volta a isto sob a perspectiva cristã, mais próxima à sua). E você, o que pensa sobre a violência? Você é violento?


Fonte imagem: Kundun (Martin Scorsese)


Referências:

Ruth Benetict. O crisântemo e a espada (https://amzn.to/3hjlogI)
Max Weber. Budismo e hinduísmo. Ensaios reunidos de sociologia da religião
Friedrich Nietzsche. O anticristo (https://amzn.to/3hqeyGj)
Herman Hesse. Sidarta (https://amzn.to/2AkawP0)

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