Texto de Daniel Corcino (IG: @pluricine)


1. Arábia: o Ladrões de Bicicletas brasileiro


Recentemente, o cinema mineiro tem produzido uma série de bons filmes realizados por cineastas em início de carreira, que ainda prometem crescer muito em sua arte. Alguns exemplos são Baronesa (2018, Dir.: Juliana Antunes), Temporada (2018, Dir.: André Oliveira) e No Coração do Mundo (2019, Dir.: Gabriel Martins & Maurilio Martins). E, dentre esses, o trabalho que mais me chamou a atenção foi o do Affonso Uchôa com o filme Arábia (2017), codirigido por João Dumans.


Para início de conversa, destaco que percebi várias semelhanças entre o clássico neorrealista do De Sica e Arábia: 1) ambos formulam uma narrativa a partir da história de um trabalhador lutando para conseguir emprego; 2) o elemento propulsor para gerar conflito na trama é a dificuldade que o contexto social proporciona aos trabalhadores; 3) os dois usam atores amadores para trazer interpretações memoráveis que fazem uma mescla complexa entre história real e ficção; 4) ambos mudam diretamente a vida real dos atores que protagonizam os filmes; 5) Os filmes objetivam criar empatia pelo protagonista a partir de sua situação precária de trabalho. E, portanto, me remeteu à alcunha que deixei no título desse tópico.


Para além das inspirações e semelhanças com o clássico italiano, enfatizo aqui principalmente o longa brasileiro naquilo que possui de singular e vou tentar dar o mínimo possível de spoilers. Retomarei a comparação entre eles ao fim do texto para fechar minha argumentação. 


2. Arábia: brasileiro, século XXI


Embora pareça uma digressão, para continuar minha escrita, preciso falar um pouco de coronavírus. Vivemos um momento crítico e muito sério, em que nossas desigualdades sociais históricas estão sendo cuspidas na cara de todos, mas principalmente nas parcelas mais pobres da população. O Brasil não é muito democrático (para ser eufêmico), o coronavírus também não. Ele atinge e vai atingir muito mais todos aqueles que não possuem condições plenas de se isolar, porque precisam trabalhar informalmente para não passar fome. Ou precisam se arriscar para acessar um “benefício” que não foi disponibilizado devidamente em seu aplicativo virtual, dentre vários outros dramas que podemos acompanhar em jornais.


Para essas pessoas, na verdade, a crise sempre existiu, o contexto de trabalho precário faz parte constante de sua vida. Em Arábia, podemos acompanhar um pouco a trajetória de Cristiano, que se encaixa nessa situação. Ele sai de Contagem (MG) em busca de um emprego para sobreviver e, devido à falta de oportunidades, ele possui apenas sua força de trabalho manual a oferecer nessa jornada.


 3. A transformação pela arte


O mais interessante é que só podemos conhecer a trajetória dele por meio de flashbacks. E aí mora uma das belezas do filme: Cristiano consegue refletir e registrar sua vida e suas reflexões enquanto trabalhador quando recebe a tarefa de fazer um diário para ajudar no grupo de teatro que começa a participar. Ou seja, por meio da arte, ele consegue fazer suas memórias perdurarem com sua escrita. E, a partir disso, sua experiência singular é ampliada para os demais que a conhecem. Então, é um filme que trata de uma vivência individual em sua profundidade, todavia alcança a partir disso questões amplas que falam muito sobre o modo de produção neoliberal e a vida das pessoas da periferia, por exemplo. O próprio nome do filme realiza esse movimento de pegar algo micro e trazer para um patamar mais macro.


A todos que se interessarem, recomendo pesquisar reportagens que falem um pouco sobre o ator Aristides de Souza (depois de assistir o filme). Adianto apenas que, fora da ficção, Aristides conseguiu mudar sua vida, sobrevivendo e criando com ajuda de aulas de teatro, assim como no filme. E, essa possibilidade surgiu a partir de sua primeira parceria com Uchôa, ambos iniciantes no cinema por meio do notável A vizinhança do Tigre (2014).


Além disso, ressalto que, como aponta o Alisson Gutemberg aqui no Cinema com Teoria, dentro da 7ª arte, os filmes latino-americanos seguem uma certa tradição de tratar do tema da miséria. Entretanto, considero que Arábia não repete completamente essa tradição. Trata-se de cinema de qualidade feito por gente da periferia sobre a periferia. Ali, há as dores de uma pessoa pobre, mas também todo o seu poder de reflexão e potência. Nisso, Arábia se aproxima dessa nova leva mineira (...) 


4. A empatia do aqui e do agora


Eu poderia ter dado mais destaque aos detalhes técnicos do filme, porque impressiona como ele acerta em quesito de forma e traz ótimas pequenas experimentações. Contudo, meu propósito com este texto é outro e prefiro que você tenha vontade de conhecer a obra mais desavisadamente (permitindo-se se surpreender com o que encontrar), sugiro até nem ler sinopse. Te digo só uma coisa: a mudança brusca do tempo narrativo durante o filme é um dos motivos que o faz algo que conversa com tradição e experimentação/atualização, tornando-o único.


Eu usei Ladrões de Bicicletas mais para chamar sua atenção do que qualquer outra coisa. Brincadeira... Gostaria de retomar a comparação para finalizar com uma provocação. Você provavelmente assistiu Ladrões de Bicicleta e sentiu as dores de Antonio Ricci, pode até ter pensado algo como “que triste, essa situação que eles passavam depois da Segunda Guerra!”. Também é bem provável que você ainda não tenha assistido Arábia. Desejo que você tenha contato com esse belo longa e acompanhe a vida de Cristiano. Caso ocorra, talvez você note que a possível empatia que venha a sentir por ele te lembre que existem milhões de Cristianos próximos de você.


O cinema é ponte. Que Arábia seja a ponte entre você e o povo brasileiro. Que gere empatia genuína no aqui e no agora, pois, para muitos, o “contexto de pós-Guerra” já era presente e, nessa luta contra o Covid-19, vai se aprofundar muito mais daqui em diante. Espero que essa obra de arte, além de gerar prazer na fruição dela, ajude a proporcionar algum tipo de ação por mudança social. Afinal, assistir mais um bom filme “cult” pode ser legal (pensando individualmente), mas fazer do cinema um possível instrumento de transformação é muito melhor para todos nós.


Fonte imagem: Arábia (Affonso Uchôa e João Dumans)

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