Texto de Daniel Corcino (IG: @pluricine)


O Homem que virou suco (1981, Dir.: João Batista de Andrade) é uma obra-prima do cinema, pois, além de possuir inúmeros méritos formais e narrativos, consegue ser um filme que resume a vida de milhões de brasileiros usando uma mescla entre drama realista e humor ácido. Nessa crítica, explico um pouco os motivos para considerá-lo um feito tão importante me utilizando dos valiosos pensamentos de Milton Santos e da questão do estereótipo do povo pobre na 7ª arte.

1. O “não” libertador

Ao ler o livro O Espaço do Cidadão (1987) de Milton Santos, um dos maiores pensadores que o nosso país possui, encontrei-me com o seguinte parágrafo:

“A Busca, pelo indivíduo, do futuro, e a libertação dos grilhões que o amarram e o tornam obediente a uma realidade cruel somente se alcançam pela negatividade, tal como Bachelard, Sartre e Schopenhauer haviam exposto. Dizer não é mostrar-se plenamente vivo e portador de uma existência ativa, é recuperar os poderes perdidos e levantar-se sobre os próprios escombros, reaprendendo a liberdade”.

Essa filosofia (revolucionária) sobre o ser humano está presente também em muitos outros autores (que possuem seus pontos de encontro e desencontro). Para citar alguns, consigo lembrar do pensamento (antirrascista e revolucionário) de Frantz Fanon, do existencialismo ateu de Jean-Paul Sartre, assim como no absurdismo de Albert Camus, que possui a célebre paráfrase à máxima de Descartes: “eu me revolto, portanto existo”.

Essa citação me fez lembrar do personagem paraibano Deraldo em O Homem que virou Suco. Ele não só representaria uma pessoa que exerce a libertação dos grilhões proveniente da negação a uma realidade opressiva à existência plena, mas o faz pelo deboche e pela ironia.

2. Toda desigualdade é socioespacial

No longa, acompanhamos a história desse nordestino que vem a São Paulo para tentar sobreviver de sua arte. A história de Deraldo é a de milhões de brasileiros... Um cidadão empobrecido, sem oportunidades (e sem terra produtiva) para exercer sua existência plenamente e garantir seus direitos básicos, que decide se arriscar migrando à cidade devido à situação de profunda desigualdade social em que se encontra.

E essa situação também me lembrou Milton Santos. Recuperando seu pensamento de modo breve, entendemos que não podemos pensar desigualdade social sem “espacializar” as desigualdades. Isto é, toda desigualdade é espacial, porque são nos territórios concretos que vemos todas as injustiças de uma sociedade expressas materialmente.

Isso significar dizer, pensando o Brasil, que os latifúndios acumulados no campo, o “quartinho de empregada”, as periferias, os condomínios de luxo, o esvaziamento do uso dos espaços públicos e os sem-teto são produto de um mesmo processo. Processo esse que tem relação direta com nossa história colonial e escravocrata, assim como com o papel geopolítico que o país possui em relação aos países “desenvolvidos” em diferentes períodos do capitalismo, dentre muitas outras variáveis.

Ademais, se houve um processo migratório massivo no Brasil, isso não se deu por mera vontade individual de pessoas se desenraizarem subjetiva e fisicamente. Mas, foi fruto de múltiplas variáveis, que englobam, inclusive, a adoção de um modelo econômico e de um Estado que centraliza o capital (nacional e estrangeiro) em áreas específicas do país, como o Sudeste, atendendo a necessidade de crescimento do próprio capital em áreas já previamente valorizadas.

3. Os caminhos de um não-cidadão migrante

Nesse sentido, o filme realiza a síntese dos caminhos possíveis para um “não-cidadão” migrante, geralmente considerado “resto social” dentro da lógica capitalista. Deraldo literalmente não é um cidadão, pois nem possuía um documento que comprovasse sua existência. Ao chegar à megalópole, tal pessoa vai morar na favela, depois precisa dormir na rua, ou em albergues “beneficentes” para pessoas em situação de rua.

Além disso, o filme é de uma acidez ímpar e isso apresenta de forma explícita e implícita. Deraldo tem de fugir da polícia devido ao recurso irônico utilizado na narrativa: o protagonista parece com outro “paraíba” que foi acusado de um crime bem icônico. O que reforça a ideia de que ele não é ninguém naquela cidade moedora de gente, não possui o status de cidadão.

No longa, também acompanhamos que viver de sua poesia não é possível, o espaço público não o “deseja”, logo ele vai passando por alguns trabalhos que seriam viáveis a alguém em suas condições, todos são informais e mal remunerados. Por meio de uma personagem mulher, também vemos outro caminho possível: a prostituição.

Todavia, ele diz “não” às explorações que o impõem em cada novo local de trabalho e essa pessoa que “mostra-se plenamente vivo e portador de uma existência ativa” acaba por ser caçado e negado de toda forma dentro desses ambientes. O filme também mostra que outros destinos factíveis a esse ser “revoltado” também seriam cercear sua circulação e liberdade (pelo hospício ou prisão). O motivo é simples de entender ao lembrar dos trabalhos de Michel Foucault ou Erwing Goffman: essas instituições totais são geralmente responsáveis pelo apagamento subjetivo de quem ali é jogado.

4. O “não” libertador aos estereótipos da pessoa em situação de pobreza

No artigo Apologia da relação cinema-história (1995), Jorge Nóvoa afirma que “a realidade-ficção do cinema promove leituras e interpretações das camadas sociais que, direta ou indiretamente, controlam os meios de produção cinematográfica”.

Sabendo disso, consigo perceber que, historicamente, os pobres são tratados em diferentes meios (por gente rica) como imundos, muito carentes, moralmente inferiores, desprovidos de inteligência, ameaças à “ordem” social, dentre outros mitos. E tal visão distorcida também está muito presente no cinema (até hoje), mas não se limita apenas a ele.

Mais uma vez, “espacializando” tal debate ao contexto brasileiro, percebemos que, assim como a população negra, os nordestinos migrantes também são encaixados como grupo social que seria uma espécie de materialização desses estereótipos de “gente pobre”. A ironia é que os nordestinos (muitos deles negros também) foram quem efetivamente construíram e habitaram muitas cidades desse país, sendo os exemplos de Brasília e São Paulo os mais ilustres.

E, portanto, O Homem que virou suco reaprende a liberdade simbólica da imagem ao não se valer do estereótipo da pessoa pobre que sofre passivamente diante das desigualdades socioespaciais do seu país.

Pelo contrário, tal pessoa encara de frente toda essa lógica que tenta o eliminar. Para isso, a obra também se vale do símbolo do cangaceiro, para reinterpretar como aquele personagem seria visto a partir de um olhar paulistano, dando um traço de ambiguidade que pode ser interpretado como “loucura” ou resistência. E tal resistência também está presente na trilha sonora, a partir de músicas populares nordestinas que conseguem interpretar o mundo de desigualdade que esse grupo social viveu e vive a chegar na cidade grande.

O filme também é ilustre ao explicitar muitas questões de classe que existem no Brasil, o que não aprofundei por não ser o foco central desse escrito. Afinal, como é convencional em grandes obras, elas possuem muitas camadas a serem exploradas e não se esgotam numa única interpretação ou análise.

Portanto, antes da Jéssica de “Que horas ela volta?” ou o povo de Bacurau, José Dumont interpretou Deraldo, que foi base dessa representação positiva e de resistência do povo nordestino diante do preconceito do olhar estrangeiro.

 

OBS: Disponível gratuitamente no Spcine Play (https://www.spcineplay.com.br/)


Fonte imagem: O homem que virou suco (João Batista de Andrade)


Referências


Apologia da relação cinema-história –Jorge Nóvoa (https://docero.com.br/doc/1)


O espaço do cidadão – Milton Santos (https://amzn.to/3e2OO0g)

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