Texto de Nicholas Mesquita


The Wall (Alan Parker) é uma viagem lisérgica através da mente de seu criador, o baixista da também lisérgica banda Pink Floyd. E, como o “doce” que causa a viagem, não agrada a todos. Mesmo alguns fãs da banda demoraram a compreender o disco lançado em 1979. Com músicas blockbusters como a onipresente Another brick in the Wall, part II, intercaladas com outras bem mais obscuras como Vera, o disco foi um sucesso de vendas, mas se apresentava meio sonolento para o grande público – a própria banda também tem essa sina hedônica.

Contudo, The Wall consegue se desgarrar dos outros produtos da banda justamente por não ser “apenas” uma obra sonora. A construção identitária de Pink, o personagem protagonista do filme, desnuda traços de psicologia social que até hoje estão presentes em nossos cotidianos – a violência originada dos medos, plurais como rejeição, solidão, abandono, do desconhecido, do outro – e se encaixam apenas quando a música encontra seu reflexo visual. No filme que Alan Parker fotografou, trazendo a paleta de cores típica das ficções distópicas dos anos 1980, retratando uma Londres caótica e cinza, naturalmente opressora, sintetizada no quarto do astro do rock, Pink, em seu auge de popularidade e de paradoxal solidão, estão todos os traços que influenciaram artistas de mídias diversas como Alan Moore e seus Watchmen e até mesmo Margaret Atwood e seu atual Conto da Aia.

Como nestas obras citadas, opressão é a chave para compreender a trajetória psicológica de Pink, atormentado pela ausência paterna, uma sombra que o persegue até a vida adulta, deixando um vazio que marcou a chamada geração silenciosa, nascida entre os anos 1930 e 1940 e que perdeu os pais (e a segurança) na Segunda Guerra, antecedendo justamente os chamados “anos dourados do capitalismo”, impulsionados pela geração baby boomer, mais liberal e transgressora. Criado por uma mãe frustrada e superprotetora, Pink carregou todos os medos e anseios dela, agravados pela educação escolar autoritária e padronizadora, constrangedora de qualquer individualidade (quem passou pelos tempos de farda escolar sabe bem o que é isto), onde a figura do professor se assemelhava a de um tirano com suas palmatórias “corretivas” e humilhantes (os próprios professores “encharcados” por seus contextos também opressivos).

Lentamente, Pink foi construindo uma identidade fragilizada, passiva, apartada de qualquer sentimento, que, de alguma forma, explodia em criatividade quando canalizada para a arte, tornando-o um astro do rock. Mas as frustrações continuavam a se acumular, como que uma reação em cadeia do que estava recalcado em seu ego vacilante. A descoberta de sua sexualidade pouco explorada fragilizou ainda mais aquele self irônico, como diria Goffman, tornando-o uma presa previsível para o adultério. A traição e o abandono da esposa eram apenas mais um tijolo na parede que Pink construiu laboriosamente ao longo dos anos, separando-o da sociedade, dos outros e de sua própria humanidade. Ele não mais sentia sequer raiva ou amor, era apenas um “sujeito-massa” que apenas reagia à vida.

O quarto do excêntrico astro do rock se tornou seu refúgio, onde a única luz que entrava não vinha da janela, sempre escura, mas da televisão inevitavelmente sintonizada nos filmes de guerra – a guerra que tirou seu pai e construiu a base do muro. Pink agora era apenas torpor, como uma confortável nuvem que paira sobre a realidade. Como um sujeito moderno, freudiano, docilizado pelo sistema apenas para ser “produtivo”, incapaz de resolver seus recalques mais profundos. Em sua mente criou uma realidade paralela, se via como um ditador, afinal, não é assim que um astro se comporta à frente de suas plateias? Oprimir para jamais ser oprimido! Atacar antes de ser atacado! Mas não adianta ser violento, o muro continuará lá, dentro de você. A única saída é derrubar o muro e se expor, conhecer e reconhecer o outro.

The Wall não se encerra com o filme de Parker, mas com a ópera que o concebeu sendo encenada na Potsdamer Platz em Berlim, ao vivo para todo o planeta, poucos meses depois da queda do muro que separou amores, famílias, uma cidade, um país e um mundo. A mensagem de Waters se ampliou naquele momento, como o grito derradeiro de Pink ao escutar seu “juiz interior”, “martele o muro que o separa da vida”. Em tempos de quarentena e apenas um ano depois da turnê comemorativa de 40 anos do álbum passar pelo Brasil, com desaforos ao seu famigerado presidente, Roger Waters amadureceu sua mensagem e a tornou um símbolo muito maior contra qualquer tipo de violência e de falta de empatia – justamente o que construiu o muro de Pink. 

Fonte imagem: The Wall (Alan Parker)


Referências:


A sociedade dos indivíduos - Norbert Elias (https://amzn.to/3deeWUJ)

O processo civilizador I - Norbert Elias (https://amzn.to/2NeBvOH)

A formação social da mente - Lev Vigotski (https://amzn.to/2YR47mp)

Medo líquido - Zygmunt Bauman (https://amzn.to/2Yjy0ga)

Representação do eu na vida cotidiana - Erving Goffman (https://amzn.to/2YWMORb)

The Wall. Berlin - Roger Waters 



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